
Aproveitando que estou com mais tempo essa semana, devido ao feriado, faço um post mais solto, relatando minhas experiências cinematográficas, sem tanta pretensão analítica (eu acho). Antes de mais nada, que fique registrada a minha frustração de ter perdido novamente a chance de ver o trabalho do Edu Aguillar, que tinha um curta no festival. Edu, me vende logo um DVD com todos os seus filmes, acho foda eu ter perdido de novo todas as exibições do seu curta! Enfim, tive a chance de ver, nessa que é a 13a edição do festival, dois filmes: Hellbent, um filme decepcionante; e Sugar, uma agradável surpresa.
Hellbent (escrito e dirigido por Paul Etheredge-Ouzts, EUA, 2004, 85 min.) é um slasher film clássico: um assassino em série persegue um grupo de amigos (nesse filme, todos gays), que buscam diversão numa festa de Holloween. A idéia parece interessante, mas achei um péssimo filme de terror, antigo, uma sucessão de clichês. Parece que a única coisa que segura o interesse é ver os clichês batidíssimos desse gênero serem vivenciados por rapazes gays. Para quem não acha coisa de outro mundo ver gays na tela, ou já pelo menos parou de corar a face quando vê cenas de sexo e romance entre homens, o filme tem pouco mais a oferecer, na minha opinião. Exceção seja feita a uma cena final, envolvendo a língua do assassino e o olho do protagonista. Algumas coisas me incomodaram, como o inevitável estereótipo dos gays malhados e obcecados por sexo e beleza. Não que pessoas assim não existam, mas enfim, irrita pela repetição constante, e pela cristalização de uma forma particular de se representar os gays. Chama a atenção, na tradução do gênero, a forma como a moralidade aparece no filme. Não estudei isso, mas creio que há uma relação forte entre esse gênero slasher e um certo medo social. Talvez não seja à toa que esses filmes aparecem numa época histórica determinada. Penso nos clichês: jovens, envolvidos em festas regadas a sexo e drogas, sendo eliminados um por um. A transgressão das normas acarreta a morte violenta. No caso do gay fica estranho, por serem todos, a princípio, transgressores. A tradução é feita, a meu ver, criando uma tentativa de casal moral, em oposição a personagens desviantes (o bissexual tarado, o modelo travestido, o romântico fraco). Parece interessante, mas não gostei do resultado.
Sugar (John Palmer, Canada, 2004, 78 min), por outro lado, prometia ser uma sucessão de clichês também: um filme sobre um menino que se apaixona por um michê, se envolvendo em drogas e prostituição. Como se os gays fossem fadados a esse papel trágico. Análise minha, pouco resolvida e pouco pesquisada: o gay, como preço para vivenciar a sua sexualidade desviante e patológica, paga o preço de viver no desvio, nas margens da sociedade, correndo todo tipo de risco, acabando por morrer no final dos filmes. Somente com a morte o homossexual é redimido do seu pecado, ter nascido aberrante. Sexo livre, drogas, prostituição, taras, violência, etc. O que eu vi, no entanto, foi um filme sutilmente poético, inteligente, uma história de amor complexa e poderosa. O filme, ao mostrar as dificuldades do michê em vivenciar o seu amor pelo menino, toca num aspecto importante da nossa cultura, que é essa impossibilidade constante de amar outro homem. O michê se recusa a encaixar-se no padrão "gay", e vive uma "amizade" com o menino. Numa cena maravilhosa, pede para que ele e o menino que se masturbem juntos, sem tocar-se. Não vivenciam um romance gay, mas experimentam essa sexualidade diferente. O menino, frustrado por não ter seu amante completamente, ainda tenta aproximar-se do michê, e com isso vivencia muitas das frustrações que tantos homens com esse desejo vivem. Ainda que a tragédia apareça no filme, ela acontece de forma a não julgar moralmente os personagens da forma como mencionei acima.




