Especulações livres

26 de mar. de 2006

Sem título

Se você quer tanto assim me conhecer, por que é incapaz de se mostrar para mim?











[se eu conseguisse pelo menos confiar em alguém...]

23 de mar. de 2006

Enchendo linguiça


Para variar, estou sem inspiração. Nessas fases, eu gosto de postar HQs (que eu acho) legaizinhos. Esse é meio óbvio, mas tem coisas óbvias que eu adoro repetir sempre.

15 de mar. de 2006

Quem manda em quem?

FOLHA DE S. PAULO, QUARTA-FEIRA, 15 DE MARÇO DE 2006

SEGURANÇA

Militares recuperaram fuzis e pistola no domingo em troca do fim das ações; comando militar diz que informação é absurda

Exército negocia com tráfico e retoma armas

(RAPHAEL GOMIDE DA SUCURSAL DO RIO)

Integrantes do Exército negociaram sigilosamente com a facção criminosa Comando Vermelho a recuperação de dez fuzis e uma pistola roubados de um quartel do Rio, em São Cristóvão (zona norte), no dia 3 de março, segundo relatos feitos à Folha por pessoas envolvidas. As armas já estavam em posse do Exército desde domingo à noite.Elas estão com a numeração raspada em três diferentes lugares. Um comboio de 12 carros descaracterizados, com homens fortemente armados do Exército transportou, no domingo à noite, os fuzis e a pistola até uma unidade da instituição. Militares celebraram o sucesso da operação no mesmo dia.Às 19h40 de ontem, o Exército anunciou oficialmente a recuperação das armas. Informou que foram encontradas em um local em São Conrado, bairro vizinho à Rocinha.Apesar de já estar com o armamento desde domingo, o Exército realizou uma megaoperação ontem na Rocinha. Havia feito o mesmo anteontem na favela do Dendê, na Ilha do Governador, e na Vila dos Pinheiros, na Maré, ambas na zona norte.A operação sigilosa para recuperar as armas, cuja negociação ocorreu entre a sexta-feira, dia 10, e o domingo, 12, envolveu um líder da facção criminosa Comando Vermelho que não está preso.Ele negociou a devolução do material a fim de livrar favelas da facção da operação de asfixia do Exército, que reduziu drasticamente o lucro da venda de drogas nas áreas ocupadas. O negociante da facção assumiu que o Comando Vermelho fez o assalto e manteve as armas escondidas até o fim de semana em uma favela plana (o que não é o caso da Rocinha), na qual a venda de droga está sob seu controle, como a Folha informou no dia 9.O acordoPara devolver as armas ao Exército, o negociador apresentou três pré-condições:1) fim das operações de asfixia das tropas do Exército nas favelas do Rio -o que aconteceu entre domingo e segunda-feira;2) apresentação pública das armas como se tivessem sido apreendidas em uma favela na qual a venda de drogas estivesse sob domínio da facção inimiga, a ADA (Amigos dos Amigos);3) transferência de um líder do CV do presídio Bangu 1 para Bangu 3 ou 4. Essa transferência pode demorar algum tempo para acontecer, para não aparentar ligação com a operação e por depender da Secretaria de Administração Penitenciária do Estado do Rio.RocinhaOntem, às 10h07 -depois de iniciada no domingo uma fase que o Exército classificou de "seletiva e pontual", sem operações "massivas"-, cerca de 400 soldados ocuparam a favela da Rocinha, a maior do Rio, onde a venda de droga é comandada pela facção criminosa ADA.A Folha soube da operação na noite de anteontem. Às 9h de ontem, quando a reportagem chegou à entrada da Rocinha, era normal o movimento de moradores. Com um radiotransmissor, o jornal acompanhou os diálogos travados por traficantes.A chegada das tropas à Rocinha os surpreendeu. "Olha o comboio do Exército! Tá vindo comboio do Exército, lá na estrada da Gávea! É muito caminhão, tem tanque de guerra! Os caras estão vindo para cá!", começou a gritar muito nervoso, pelo rádio, um vigia do tráfico na favela, que antes fazia brincadeiras com outros colegas.Os traficantes negaram estar com os fuzis. "As armas não estão com a gente, não! Aqui não tem [fuzil] 7.62!", gritou um rapaz, pelo rádio. ""Vai lá buscar no Complexo do Alemão. Está tudo lá. Aqui é o bonde do tesouro. Temos dinheiro para comprar armas, não precisamos roubar", disse outro.AbacateApós o desespero inicial, em que descreviam freneticamente o poderio militar da Força, os traficantes da Rocinha passaram a fazer ameaças por rádio e a negar estar com as armas."Vai entrar na bala geral. Barulha os caras!", disse outro. "Vagabundagem, fica na atividade, subiu o maior bondão de abacate [Exército]!", disse um traficante.Com um potente aparelho de som instalado em um jipe militar estacionado em frente a um dos pontos mais movimentados da favela, o Exército pedia ajuda à população da favela. ""Atenção moradores da comunidade. O Exército brasileiro vai recuperar as armas desviadas. Denuncie os assaltantes. Sua identidade será preservada. Exército brasileiro. Braço forte e mão amiga."Pelos radiotransmissores, os traficantes falavam sobre a conduta surpreendente dos militares. "O periquito [como os traficantes chamam os militares do Exército] em vez de ficar na atividade, fica de costa para vagabundo", disse um deles.

(Colaboraram SERGIO TORRES e MARIO HUGO MONKEN, da Sucursal do Rio)

12 de mar. de 2006

Relacionamentos: o eterno retorno dos mortos-vivos




Do site Mixbrasil:

[http://mixbrasil.uol.com.br/id/psi/ressaca/ressaca.shtm]

[...]De acordo com o psicanalista Júlio Nascimento, mudanças drásticas no padrão de comportamento após o término de uma relação são um sinal de punição. “Se por acaso o Eu se sentir culpado, pois ele acredita que destrói o objeto com seus maus tratos, e que o objeto num ato de vingança o abandonou como forma de retaliação, o Eu se sentirá culpado e o Super Eu, que não tolera erros por parte do Eu, vai tentar puni-lo. Nestes casos o corte de cabelo, por exemplo, pode ser experimentado como uma mutilação, ou a dieta como penitência etc”, explica.[...]

E como ficam pessoas que, como eu, usam de infinitas racionalizações para se proteger de decepções futuras, que nem aconteceram? provavelmente, enterradas em raciocínios cada vez mais elaborados, mal percebem o quanto estão se auto-punindo por "perdas" do passado. Muitos que como eu criticam a lerdeza e apatia alheia acabam por encobrir uma dificuldade enorme de auto-crítica e de caminhar adiante em áreas importantes da vida. De que adianta ficar calculando o Id e o Superego nessas horas? Não vira mais um exercício lógico tão vazio quanto oportunista? Acho que só conseguimos abrir mão do passado quando recuperamos a capacidade de imaginar que há um futuro. As mágoas que já se foram oferecem uma espécie distorcida de segurança, pois representam algo que nos é familiar. Ao mesmo tempo em que reiteramos uma briga passada, uma mágoa distante, revivemos também um pouco do projeto (falido) que, antes de terminar, movimentou nossos desejos e esperanças. O mal-resolvido serve, então, de conforto, como uma forma de dar sentido ao caos. Um sentido passado, morto, como um zumbi: um morto-vivo que come a carne dos vivos, pois ele impede a vítima de lançar-se em novos projetos, de correr riscos, de efetivamente viver. Reviver uma mágoa passada é como um remédio malicioso: Ainda que ele cure, aparentemente, a dor do vazio e da ausência, seus efeitos colaterais são, entre outros, uma sonolência profunda, uma falta de sonhos, e de vontade de ir adiante. Quem se apega ao passado comete o suicídio do futuro.

11 de mar. de 2006

Uma última sobre Brokeback Mountain

Eu nunca gostei muito do Arnaldo Jabor. Sempre achei ele inteligente, mas ainda assim medíocre, falando para um ouvinte/leitor com o qual eu nunca me identifiquei, fazendo comentários bem construídos sobre, muitas vezes, apenas babaquices. o que deveria ser engraçado ou "moderno", nos seus comentários, nunca fizeram sentido para mim. Não conheço sua filmografia pra dizer se presta ou não. No Jornal Nacional, os seus comentários variavam de um senso comum enfeitado(ainda que pobre) a comentários marcantes (e muito raros) sobre os temas "da atualidade". Estatisticamente, os que eu gostava eram menos de 1 em 100, então minha opinião sobre ele continuou inabalada. O texto abaixo, enviado hoje de manhã por um amigo, confirma um pouco das razões por que eu nunca me identifiquei com ele. Os referenciais dele nunca serão os meus; acho que sua inteligência é aquela de um Brasil que já se foi, a do Brasil do final dos anos 70, do período da abertura. Esse Brasil, que está no poder, foi o Brasil de Fernando Henrique e Lula, duas faces de uma mesma moeda cultural-política. É um projeto político-cultural e de valores, um projeto de "civilização", pra ser bem cientista social de buteco. Assim como o projeto político desse pessoal caducou a partir da vitória do Lula e do mensalão, esse projeto cultural de 1979 caducou, e faz muito tempo. O texto abaixo, de autoria de Jabor, expressa bem o assombro desse tipo de brasileiro frente aos desafios do agora, pelo menos em referência à sexualidade. Jabor aqui demonstra ser auto-consciente dos seus limites, e por isso o texto abaixo é, desde já, o meu favorito de sua autoria. O interesse do texto para mim não se limita ao fato de ser mais um comentário sobre Brokeback Mountain; Jabor nos dá aqui pistas para um entendimento da questão da homossexualidade no Brasil, e os desafios que homossexuais e heterossexuais precisam enfrentar daqui para frente. Do lado hetero, a questão de que ser "liberal" implica mais do que aceitar um gueto, implica mais do que dizer "gays podem fazer o que quiserem, mas que façam isso longe de mim, escondidos". Do lado homo (e aqui eu deixo claro um projeto com o qual concordo) a questão é, cada vez mais, a necessidade (mais do que a possibilidade) de sermos pessoa inteiras, seres humanos completos, mais do que uma prática sexual "transgressora". E o trabalho continua...

‘Brokeback’ é um filme sobre heróis machos
(Arnaldo Jabor, O Globo, 07/03/2006)

Eu não queria ver o filme “Segredo de Brokeback Mountain”. Não queria. Ver filme de viados , eu? (Escrevo viado porque, como disse Millôr, quem escreve “veado” é viado ). Muito bem; eu resistia à ideia, mais ou menos como o Larry David (o roteirista de “Seinfeld”) disse, num artigo engraçadíssimo, que tinha medo de virar gay se ficasse emocionado.
O viado sempre encarnou a ambigüidade de nossos sentimentos. Claro que, hoje, os civilizados todos dizem que “tudo bem, que são contra a homofobia” e todo o bullshit costumeiro. Eu mesmo já fiz filmes em que viados são protagonistas, em que o ator principal escolhe o homosexualismo no final (“Toda nudez será castigada”), já filmei travesti em “Eu te amo” e em “Eu sei que vou te amar”, além da biba louca do “O casamento”, em que o grande ator André Valli dá um show inesquecível. Em todos os meus filmes há uma boneca ativa e digna. E, no entanto, eu não queria ver o tal filme do Ang Lee, apelidado pelos machistas finos de “Chapada dos Viadeiros”.
Minhas razões eram mais discretas, intelectuais: “Ah... porque o Ang Lee é um cineasta mediano, ah... porque será mais um filme politicamente correto, onde o amor de dois caubóis é justificado romanticamente... Vou fazer o que no cinema? Ver mais um panfletinho que ensina que os gays devem ser compreendidos em seu ”desvio“? Não. Não vou”, pensei.
Aliás, eu sou do tempo em que os viados apanhavam na cara em plena rua. Havia pouquíssimos gays declarados no Brasil. No Rio, havia o Murilinho... cantor de fox em boates, havia o Clovis Bornay e poucos outros... O viado passava na rua sob os rosnados dos boçais prontos para lhes tirar sangue. E, no anonimato, enxameavam os pobres “pederastas”, de terno e gravata, pais de família se esgueirando nas esquinas, nas noites escuras, em busca de satisfação.
Mais tarde, com o tempo, surgiram as “bichas loucas”, que se assumiam com um toque de autoflagelação, de autoderrisão, caricaturas da mãe odiada e amada, que berravam e desfilavam nos carnavais num freje humorístico, que até hoje alimenta nossos shows na TV. A “bicha” virou uma personagem clássica do humor, como os palhaços e os bacalhaus de circo. E tudo bem... são engraçados mesmo.
Depois, com os direitos civis dos anos 60, surgiu a gay power , com homossexuais fortes e de bigode, malhados, cheios de orgulho. A viadagem virou um poder político importante, claro, mas até meio sério demais, aspirando a uma “normalidade” que contrariava sua “missão” trangressiva que tanto nos acalmava. Como disse Paulo Francis um dia, sacaneando-os: “Se esses caras querem todos os direitos e deveres dos caretas como nós, qual é então a vantagem de ser viado ?”
Em suma, por mais que “aceitemos” os gays, eles sempre foram uma fonte de angústia, pois atrapalham nosso sossego, nossa identidade “clara”. O gay é duplo, é dois, o viado tem algo de centauro, de ameaçador para a unicidade do desejo. A bicha louca ou o travesti, a biba doida ou o perobo , o boy , o puto, a santa, a tia, a paca, todos eles nos tranqüilizavam com suas caricaturas auto-excludentes. Já o gay sério inquieta. O gay banqueiro, o gay de terno, o gay forte, o gay caubói são muito próximos de nos, a diferença fica mínima.
Por isso, eu não queria ver o tal filme dos caubóis. Como? Caubói de mãos dadas, dando beijos românticos, com tristes rostos diante do impossível? Não. Eu, não. Mas, aí, por falta de programa, “distraidamente”... (aí, hein, santa?...) fui ver o filme. E meu susto foi bem outro. O filme não me pedia aprovação alguma para o homossexualismo, o filme não demandava minha solidariedade. Não. Trata-se de um filme sobre o império profundo do desejo e não uma narração simpática de um amor “desviante”. O filmes se impõe assustadoramente. Os dois caubóis jovens e fortes se amam com um tesão incontido e são tomados por uma paixão que poucas vezes vi num filme, hetero ou não. Foi preciso um chinês culto para fazer isso. Americano não agüentava. Nem europeu, que ia ficar filosofando. “Brokeback” é imperioso, realista, sem frescuras. Eu fiquei chocado dentro do cinema, quando os dois começam a transar subitamente, se beijando na boca com a fome ancestral vinda do fundo do corpo. O filme não demandava a minha compreensão. Eu é que tinha de pedir compreensão aos autores do filme, eu é que tive de me adaptar à enorme coragem da história, do Ang Lee. Eu é que precisava de apoio dentro do cinema, flagrado, ali, desamparado no meu machismo “tolerante”. Eu é que era o careta, eu é que era o viado no cinema, e eles, os machos corajosos, se desejando não como pederastas passivos ou ativos, mas como dois homens sólidos, belos e corajosos, entre os quais um desejo milenar explodiu. Não há no filme nada de gay, no sentido alegre, ou paródico ou humorístico do termo. Ninguém está ali para curtir uma boa perversão. Não. Trata-se de um filme de violento e poderoso amor. É dos mais emocionantes relatos de uma profunda entrega entre dois seres, homos ou heteros. Acaba em tragédia, claro, mas não são “vítimas da sociedade”. Não. Viveram acima de nós todos porque viveram um amor corajosíssimo e profundo. Há qualquer coisa de épico na história, muito mais que romântica. Há um heroísmo épico, grego, como entre Aquiles e Pátroclo na “Ilíada”, algo desse nível. O filme não é importante pela forma, linguagem ou coisas assim. Não. Ele é muito bom por ser uma reflexão sobre a fome que nos move para os outros, sobre a pulsação pura de uma animalidade dominante, que há muito tempo não vemos no cinema e na literatura, nesses tempos de sexo de mercado e de amorezinhos narcisistas.
Merece os Oscars que ganhou. Este filme amplia a visão sobre nossa sexualidade.

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