Especulações livres

10 de ago. de 2008

À meia noite levarei a tua alma (José Mojica Marins, 1964)



Em homenagem ao lançamento do novo filme de Marins, Encarnação do Demônio, e fã que sou do seu trabalho, resolvi rever o primeiro grande sucesso do diretor. Afinal, se a trilogia sobre Zé do Caixão aparentemente se completa agora, 44 anos depois do início da série, quis reencontrar o personagem lá no inicio, quando fora pensado pelo seu criador. A primeira dificuldade se coloca: posso eu, como fã, escrever de forma “objetiva” ou “desinteressada” sobre Mojica? Claro que não, e também não estou interessado em tentar. Toda escrita não deixa de ser uma opinião, por melhor fundamentada que seja. Qualquer análise, especialmente de obras de arte, tem por trás de si interesses. Dada essa premisa, uma outra dificuldade correlata é: como separar o personagem Zé do Caixão presente nos filmes da sua imagem, superexposta pela mídia mundial? Como olhar para um filme como À Meia Noite... hoje sem ser influenciado pela infinidade de discursos, de todo tipo e viés, sobre o diretor, sua obra e especialmente sobre Zé do Caixão, que emerge do imaginário popular urbano brasileiro para tornar-se um dos ícones do terror mundial? A resposta é a mesma: não é possível. Todo discurso possui um contexto, um espaço e um tempo. Minha tentativa de escrever sobre Mojica agora, contextualizada pelo lançamento de seu novo filme, não deixa de ser também minha gota d’água na correnteza de palavras e imagens produzidas a seu respeito. Deixo aqui minha pequena contribuição, que é ao mesmo tempo expressão da minha admiração pelo diretor, que considero dos maiores do panteão de cineastas nacionais.

Ao rever o filme, fica clara a diferença entre Zé do Caixão aqui e em outros filmes do diretor. Zé do Caixão tem nesse filme uma concretude que difere da condição de símbolo e ícone que ganhou após o seu sucesso estrondoso que fez. Mojica, que faz meta-análises próprias sobre Zé em diversos filmes seus (de forma mais brilhante em Ritual dos Sádicos, de 1970), aqui apresenta uma história simples, sobre um homem complexo que enfrenta dilemas existenciais e questiona desde as tradições da vila em que mora, até a sua religião. Pelo menos na versão que assisti, o filme possui estrutura linear bastante definida, bastando-se a si mesmo: não deixa aberturas para seqüências e apresenta a vida e morte, começo e fim desse personagem.

Assim como em tantos outros filmes seus, os conflitos apresentados são ao mesmo tempo de natureza puramente existencial (a recusa em seguir tradições, o prazer e a proibição do sadismo, a busca de procriar e dar continuidade ao sangue) e profundamente filosóficos (recusa da religião como meta-explicação para a natureza, a elevação da vida guiada pelo prazer dos sentidos como justificativa máxima para existência, a recusa da moralidade em favor da continuidade do sangue dos mais fortes). Tais sutilezas, completamente apagadas de grande parte das análises que leio de Mojica, são tambem perdidas ao longo de tantos outros filmes do diretor. Em outras palavras, enquanto que nesse primeiro filme Zé aparece como complexo ser humano, que ao mesmo tempo mata sua esposa (justificada, por ser infértil) e admoesta um pai por bater em seu filho (pois as crianças são a continuidade do sangue), em outros filmes Zé do Caixão vira imagem. Ou seja, os argumentos tomam como ponto de partida o imaginário popular que desenvolveu-se em torno do personagem, por vezes analisando sociologicamente o fenômeno, por outras lamentando o apagamento do diretor Mojica e da confusão criada entre criador e criatura (confusão que Mojica faz questão de incentivar em aparições públicas).

Numa entrevista, parte dos extras desse DVD a que tive acesso, Mojica esclarece pequenos detalhes sobre Zé do Caixão, reveladores da sua concretude enquanto ser humano. Para além da famosa história a respeito de como Mojica sonhou com a data de sua morte, quando foi então “revelado” o personagem (ou assombrado por ele), Mojica menciona que Zé do Caixão foi um soldado que, tendo retornado da II Guerra na Europa, não consegue adaptar-se à comunidade local. No filme vemos um pouco da vida social de Zé: vai à pescaria com amigos, tem um casamento relativamente feliz e freqüenta o bar local como qualquer pessoa. Ainda que sua aparência destoe da do resto da comunidade (a famosa capa preta e cartola), Zé é parte da comunidade, um ser humano e não uma aparição etérea.

Seus problemas começam quando Zé, cansado de esperar que sua esposa engravide, decide matá-la. O assassinato marca a “queda” do ser humano Zé, em direção ao lado escuro da sua personalidade. A meu ver, o filme como um todo pode ser visto, entre outros registros, como o de uma queda de Zé rumo ao extremo de suas ideologias (um dos temas favoritos de Mojica nos anos 1960), caminho que o leva também em direção ao sobrenatural. O sobrenatural serve no filme tanto como marcador do macabro, quanto para dar sentido ao discurso social e filosófico de Zé. Ou seja, como figura socialmente aberrante, anti-religioso e nietzscheanamente a favor da “vida e do sangue”, Zé aparece para sua comunidade como “monstro”.

Mojica faz assim um paralelo entre a superstição do povo no filme com a imagética que dá sentido ao próprio filme (abusando de estereótipos como gatos pretos, ciganas e despachos de umbanda). O filme possui então ao menos duas camadas de sentido relevantes para entender o efeito de terror que é buscado. A primeira, no interior da história, Zé do Caixão como desviante é percebido como marginal na sua comunidade, tornando-se assassino na sua busca de realizar a continuidade do sangue. A segunda refere-se às opções estéticas do diretor: Mojica, consciente como sempre do seu público, apresenta um dilema de representação: como tornar visível a recusa da moral?

No caso brasileiro (ou a partir da compreensão de Mojica do brasileiro da sua época), tal recusa faz sentido visualmente em termos de uma afronta às tradições religiosas (a célebre cena de Zé comendo carne com a procissão ao fundo), e do sobrenatural (ciganas, cemitérios, almas penadas): um anti-cristão só pode, nesse esquema de sentido, ser aliado do “demônio” ou de “forças ocultas”. Zé do Caixão, ao recusar a moral (o bem e o mal tal qual definidos pela sua comunidade) em favor do que ele chama de “superioridade da vida” (representada pelo direito do mais forte de impor sua vontade e de reproduzir seu sangue), é percebido então como encarnação do mal; ou seja, é lido nos termos da moral que ele próprio busca recusar. Em outras palavras, Mojica enfrenta o dilema por ele proposto ao abraçar em certa medida alguns clichés visuais e míticos os quais ele comenta irônicamente ao mesmo tempo em que os usa em seu favor, para chocar o público.

Zé não deixa de ser algo confuso, um meio termo entre o real e uma aparição. Para além do filme, Mojica também busca o tempo todo confundir os limites entre o real e a ficção a partir de suas falas sobre o filme. A construção visual do personagem é um exemplo: o excesso nas roupas (que Mojica revela em entrevista serem peças tiradas de uma fantasia de Exú) é associado a uma decoração pouco tradicional mostrada no filme, por exemplo, a partir de mãos de manequins servindo de ganchos; uma especie de “pré-psicodelia mojicana” que antecipa a visualidade de filmes como Laranja Mecânica. Nascido como um coveiro com opiniões bastante heterodoxas sobre as pessoas que o cercam, achando-as ignorantes e supersticiosos, no decorrer do filme Zé atravessa uma fronteira, rumando em direção ao “monstro” que tanto define sua imagem posterior.

PS: Publico esse texto sem ter visto o novo filme, que estreiou ontem, 08/08/08. Tentarei postar comentários sobre o novo trabalho assim que conseguir assistí-lo.

5 de ago. de 2008

Charge sobre Daniel Dantas

Ainda sem palavras para comentar esse caso, que vai entrar para história (um dia, quando essa história puder ser contada, quem sabe daqui a 100 anos), achei essa charge bem interessante, como documento simplificado dos fatos. Num momento perverso da nossa política, mas que ao mesmo tempo permite que vejamos as entranhas do câncer que corrói a nossa sociedade há tanto tempo, o que há de claro é um momento de desencaixe entre a realidade e as linguagem que possuímos para descrevê-la. Pelo menos no consciente coletivo (leia-se: mídia, conversas de botequim, etc.; pois em várias instâncias já se fala a verdade em novas linguagens a muito tempo, com em alguns blogs e revistas). Será que ocorrerá de a sociedade brasileira, a partir de uma reavaliação dos fatos, começar a exigir novas leis, novas práticas públicas, novas atitudes de seus governantes? Permaneço otimista. Mas devidamente sentado.

26 de jul. de 2008

Auto-retrato, 2008


Não consigo reconhecer a mim mesmo.


Não consigo reconhecer-me no espelho, nas minhas atitudes, nas minhas opiniões, no vivenciar do meu próprio corpo. Isso me faz pensar num auto-retrato: será que, no processo de pintá-lo, um artista queira, de alguma forma, explorar a sua própria personalidade, seus sentimentos, suas percepções de si? Não sei, nunca pintei nada. Mas, ainda que seja perturbador, vivo essa ausência como algo positivo. Deparo-me com alguém que admiro muito mais, de quem gosto muito mais. Alguém que conheço pouco, mas que me intriga. Ainda que esse alguém seja mais estranho e complicado do que a pessoa que conheci há poucos anos atrás.

[imagem: Two Studies for Self Portrait, Francis Bacon, 1977]

23 de jun. de 2008

Desterritorializado


Desci a rua, procurando retomar alguns dos lugares que davam, para mim, sentido àquela cidade. A poluição irritando minhas narinas era-me bastante familiar, ainda que algumas coisas a gente busque sempre esquecer. Não vi ninguém: o burburinho de pessoas bebendo cerveja e conversando, a paquera rolando solta, até a gritaria que incomodava os moradores de classe média-alta do local, todos sumidos. A rua deserta, os bares fechados. Na rua de baixo, a mesma coisa. Ali, numa esquina onde por tantas vezes ficava observando o movimento, pensando na vida, paquerando, escutando conversas alheias, comparando corpos, avaliando o que estava na moda, reencontrando velhos amigos e fazendo novos... Tudo aquilo que compõe o que chamamos de vida. Não era o tipo de vida mais salubre, ou as melhores companhias possíveis, mas não eram as piores. Era o que tínhamos, e era bom saber que ali poderíamos estar, de certa forma, à vontade. Ao me deparar com o vazio, senti esse mesmo vazio dentro de mim. Ao voltar ao meu país, buscando reconectar com algumas das minhas raízes, deparo-me com a ausência. Sinto-me ausente, desconectado, andando por um sonho, no qual não participo, um fantasma. Sinto-me velho, como se eu estivesse fora de moda, ou alheio aos tempos; como se tivesse perdido o bonde. Para onde foi todo mundo? Decerto ainda se encontram, conversam, afinal fazemos isso há milênios... Conversar com algumas pessoas, infelizmente, traz-me o mesmo sentimento de vazio e de perda. Não consigo achar as mesmas coisas interessantes, não consigo rir da mesma forma, das mesmas piadas. Algo aconteceu de muito importante, para além da perda, e eu preciso entender o que é. Isso se quiser retomar algo. O vazio, diria o otimista, é a chance de construir algo novo, quiçá melhor do que o que havia ali antes. O pessimista diria que é a inexorável viagem rumo à morte, o tornar-se obsoleto, ou algo desse tipo. A mim, que não consigo mais saber se sou um ou outro, ou nenhum deles, ficou a impressão de que o tempo passou, e eu não percebi. Como se perdesse algo de central num filme enquanto tivesse ido ao banheiro, ou buscar mais pipoca. Será que esse algo está dentro de mim, ou será que, como num filme de Buñuel, estou numa nova história sem relação nenhuma com a anterior? A pausa é algo de que precisava, mas a impaciência começa a manifestar-se, como sempre.

[imagem: Rua da Consolação, São Paulo]

8 de abr. de 2008

Novo "layout"


Andei brincando com o "layout" do blog. Nunca fui muito de fazer isso. Nem a minha casa decoro muito, mas sempre e tempo de mudar essas atitudes. Achei uma pintura do Rembrandt, com o tema de um pintor, um interessante comentario visual sobre as coisas que mais me empolgam na hora de escrever: nao imagens em si, mas representacoes, de todas as formas. De mim mesmo, filmes, a propria politica. Enfim, as tais especulacoes livres. Fiquei pensando que em alguns meses o blog completa 4 anos de existencia. Nascido em Sampa, o blog representa para mim esse periodo da minha vida as tantas coisas que pensei e experimentei por la. Quase tudo que escrevi aqui relaciona-se com os 4 anos otimos e terriveis que passei na cidade. Se eu nunca mais voltar a morar em Sao Paulo (e espero que esteja errado nisso), que fiquem essas lembrancas aqui daquele tempo.

[imagem: Artista em seu estúdio, Rembrandt, 1629]

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