Ja que o post abaixo fez relembrar essa coisa anos 1980, que eu alias nunca gostei e desejaria que nunca tivesse voltado, vamos aprofundar a tendencia e falar de um dos filmes legais que vi no fim de semana, entediado. Liquid Sky, uma ficcao cientifica bizarra repleta de modelos drogados, sexo facil, androginia e crises existenciais, com poemas mal escritos no meio. Falando assim da a entender que detestei o filme, o que nao e o caso. Tudo bem que algumas das premissas do filme, ainda que pudessem ser interessantes, soam cafonas. Como o embate entre a modelo cocainomana e emocionalmente fragil, usada pela namorada lesbica e abusada por todo homem que aparece no seu caminho, e um de seus professores ex-hippies. Tipo, voces com seus jeans acharam que estavam lutando pela liberdade; nos anos 80, pelo menos a gente sabe que nao e livre. Briguinha de subcultura, qual droga e mais legal, qual sexo livre e mais ou menos livre... No final, os anos 80 ganharam disparado. Hoje em dia nao existe alternativa mesmo, tudo que e "alternativo" e tomado pela ideia de que transar com todo mundo e se drogar sao revolucionarios, e que a roupa que se usa define sua ideologia. Vendo o filme, me senti na Sao Paulo de 2002, quando cheguei la, deslumbrado pela "liberdade" que a decadente metropole me oferecia, sedento para fazer parte de rodinhas de "modernos" e pessoas interessantes em geral. Depois de um tempo, tudo o que eu queria era que meu amigo parasse de tomar extasy todo fim de semana e que eu pudesse conversar com alguem "normal", que entendesse minha necessidade de tomar cafe da tarde todo dia... Mas enfim, de volta ao filme: a moda e elemento marcante da historia, e chega a ser um personagem a parte. Coisas bem bizarras, tipo aquelas aberturas do fantastico horrendas do Hans Donner. Uma das cenas mais legais e um show que a performer/poeta/lesbica/traficante/boemia faz numa boite de NY (ja viu esse filme antes ne? Pois e), com batidas eletronicas que me fizeram lembrar de tantas noites n'A Loca. Ao final, talvez os anos 80 voltaram por que nunca superamos a decadencia que eles abracaram. Cocaina, moda, desilusao com a perda das ilusoes, capitalismo desenfreado... Nao vou aqui fazer discurso pseudo-sociologico em cima de cultura pop urbana (afinal o filme faz isso de forma muito mais interessante). Vale a pena para uma noite vazia, para o nerd que existe dentro de voce conhecer um pouco mais sobre esse periodo fascinate do fin de siecle que passou.
... sentindo que cai de novo na mesma besteira de sempre... Insonia, irritacao, pesadelos. Por mais que a gente se defenda, por dentro, algo em mim sempre sente que se deu mal. Algo em mim sempre me empurra pra isso, e depois eu fico naquela onda de fazer o luto, de tentar esquecer, de nao querer fazer isso nunca mais, de tentar achar outra coisa. Pelo menos nesses dias eu escuto uma musica como essa, e entendo de uma forma que nunca entendi antes. Acho que talvez seja a voz da Lily Allen que me fez (re)descobrir essa musica, que nunca constou nos meus top 20 da infancia.
Pra cantar junto:
Once I had a love and it was a gas Soon turned out had a heart of glass Seemed like the real thing, only to find much o' mistrust Love's gone behind Once I had a love and it was divine Soon found out I was losing my mind It seemed like the real thing but I was so blind Much o' mistrust Love's gone behind In between what I find is pleasing and I'm feeling fine Love is so confusing, there's no peace of mind If I fear I'm losing you It's just no good, you teasing like you do Once I had a love and it was a gas Soon turned out had a heart of glass Seemed like the real thing, only to find much o' mistrust Love's gone behind Lost inside Adorable illusion and I cannot hide I'm the one you're using please don't push me aside We coulda made it cruising yeah La, La, La, La, La, La, La, La, La, La La La, La, La, La, La, La, La, La, La, La La Yeah, riding high on love's true bluish light Ooh, oh Ooh, oh Ooh, oh Ooh, oh Once I had a love and it was a gas Soon turned out to be a pain in the ass Seemed like the real thing only to find much o' mistrust Love's gone behind Ooh, oh Ooh, oh Ooh, oh Ooh, oh
Estava passeando pela Rua Guadalupe, perto do campus aqui em Austin, e entrei numa livraria, atraido pelas ofertas de livros baratos. Livros a 1 dollar, ou 2 ou 3. Como bom viciado, nao pude resistir. Sabia que, uma vez ali dentro, acabaria comprando uma ou outra coisa. Logo achei algo que poderia me interessar: um livro sobre filosofia medieval aristotelica, pre-cartesiana. Esoterico, pensei comigo mesmo, mas vai saber se um dia nao preciso disso, ou nao tenho algum tempo sobrando? provavelmente nunca vou ler, como tantos livros que compro; mas como tantos outros, acabam sendo cruciais em algum momento por algum motivo obscuro. Um outro livro me chamou a atencao: um dicionario de arte francesa do seculo XIX, uma edicao linda, com papel de alta qualidade e imagens a cores. Folheando o livro achei bastante esoterico tambem, mas nao resisti, comprei. Fui tomar um cafe logo depois e abrindo os livros, de de cara com a seguinte imagem:
O quadro chama-se L'etoile, e foi pintado por Degas entre 1876-1877. Fiquei fascinado pois, como num post abaixo onde falo da queda de Icaro (ou nao falo, pois ai esta o "point" da coisa), aqui o quadro me pareceu fascinante pela forma como trata da questao da representacao. Sim, alguns leitores diriam que estou projetando minhas obsessoes em cima da obra, mas ainda que seja isso, seria uma leitura valida. Degas, ainda que nao seja impressionista por definicao, circulou no movimento e e lido como um deles. Uma das coisas que me fascinam no Impressionismo e que colocam em questao a representacao em si mesma. Nesse quadro, parece-me que aqui a questao aparece duplamente: tanto na forma de pintar quando no tema pintado. Deixo ao leitor a tarefa de imaginar uma leitura do quadro nesses termos, afinao o post era mais para marcar o momento, e enfeitar meu blog com essa linda imagem...
So para nao perder o costume, ja que andei indo ao cinema ultimamente, posto aqui um pequeno comentario irrelevante sobre esse grande filme do diretor holandes Paul Verhoeven. O filme me faz lembrar Sampa (ultimamente tudo me faz lembrar aqueles 4 anos), e do filme que vi numa sessao Comodoro qualquer: De Vierde Man, ou O Quarto Homem, de 1983, se nao me engano. Uma historia bizarra sobre assassinato, homosexualidade e paixoes proibidas. Conhecia Verhoeven basicamente por Tropas Estrelares, um filme de ficcao cientifica que poderia passar completamente desapercebido como mais uma tentativa de copiar Guerra nas Estrelas, nao fosse o subtexto eugenico e nazista, entre outras criticas sociais interessantes que aparecem no filme. Apos ver O Quarto Homem, abriu-se uma nova percepcao desse cineasta, e senti que havia ali algo que eu deveria descobrir mais a fundo. Quando o filme abriu aqui, depois de sofrer para conseguir uma carona ao cinema (bons tempos em que eu andava a pe para todos os meohores filmes do mundo! No Texas quem nao tem carro nao faz nada) pude me deliciar com uma narrativa insolita, ainda que supostamente baseada em fatos reais, de uma garota judia, escondida do governo nazista que ocupara a Holanda, e que infiltra-se nos mais altos escaloes do nazismo local.
Para mim o interesse maior foi investigar essa ideia de Verhoeven como um cineasta do insolito e do bizarro, um pouco como Lynch (este que conseguiu firmar-se como detentor dessa marca), mas de uma forma altamente sexualizada, levando em conta as paixoes humanas e explorando vertentes dessas motivacoes que nao sao exploradas em outros roteiros, por outros cineastas. Como comentario sobre o filme sei que nao acrescentei nada a compreensao de ninguem sobre o filme ou sobre o cineasta, mas posso dizer que as 2 horas e meia de filme conseguem deixar a impressao, salvo alguns exageros, do quanto a realidade consegue ser mais insolita que qualquer ficcao poderia pretender ser.