Depois de muito hesitar, e de escrever textos aqui nesse blog defendendo uma visão menos catastrofista da crise do "mensalão", tenho que reconhecer que, desde ontem, quando foram absolvidos os deputados Roberto Brant (PFL) e Professor Luizinho (PT), não há mais dúvidas: o projeto petista caducou rápido demais, e sua função histórica, a de acabar com a hegemonia de alguns grupos na política representativa, terminou. O que vemos é a adequação do PT ao status quo vigente, ou da palhaçada que reina no Congresso, coisa que muitos falavam antes e eu me recusava a acreditar. Sou assim mesmo, meio cabeça dura, mas contra os fatos e a lógica não há como discutir. Não voto mais no PT. Ainda que a crise atual tenha seu lado positivo, qual seja, a de mostrar a verdadeira face da nossa política, não tenho mais estômago para achar que o PT tenha mais algo a dizer de sério, depois de se aliar ao PFL. E para livrar de punição réus confessos! Qual é a lógica!?! Não há nenhuma justificativa plausível. Que venha o PSOL, ou outro partido mais interessante (por que votar nulo ou em branco, pra mim, ainda não faz nenhum sentido). Muitos comentaristas, como a Lucia Hippolito abaixo, chamam a atenção para o perigo dessa falta de decoro coletiva dos deputados: abre-se cada vez mais um fosso entre o que o governo quer e faz e o resto do país. Uma situação assim dificilmente se sustenta por muito tempo. Resta saber como se resolverá isso: ou moraliza-se a instituição, ou os loucos que querem fechar o congresso ganham de vez a batalha moral. Abaixo alguns textos que marcam esse momento inglório da nossa história recente.
1) Editorial da Folha de S. Paulo de hoje, sexta-feira, 10/03/2006
LIVRES PARA DELINQÜIR
A acintosa decisão da Câmara de absolver dois deputados federais que receberam dinheiro ilegal exige da Casa -para manter a coerência com o despudor que norteou as votações de anteontem- a extinção de seu Conselho de Ética. O órgão deve ser fulminado por colapso de autoridade e de objeto.Na sessão de quarta-feira, a maioria dos parlamentares não se restringiu a livrar da cassação Roberto Brant (PFL-MG) e Professor Luizinho (PT-SP). Foi muito além e produziu uma norma não-escrita: políticos estão liberados para beneficiar-se de esquemas criminosos de captação e distribuição de recursos desde que declarem que o dinheiro foi usado para fins partidários ou eleitorais.Nos três casos em que julgou deputados que assumidamente receberam recursos por intermédio do publicitário Marcos Valério de Souza, o plenário foi reincidente na ignomínia. Afrontou o Conselho de Ética e preservou mandatos e direitos políticos do trio -o primeiro a ser absolvido foi Romeu Queiroz (PTB-MG), em dezembro- que sorveu mais de R$ 500 mil do "valerioduto".Ao liberar a delinqüência -caixa dois é crime financiado por corrupção e outras fraudes-, os deputados expulsaram o que se entende por ética de seus domínios. Indecorosa é por definição a maioria de uma Casa que -ao abrigo do escrutínio público, escudada no anonimato do voto secreto- abona indecorosos. Mas, como não há pena possível para a quebra de decoro de um colegiado, só se pode concluir que os legisladores reescreveram seu código de costumes para aceitar a indecência.Qual a utilidade de seguir com os processos dos outros "mensaleiros"? O plenário já afirmou que o delito que praticaram em furtivas procissões à agência do Banco Rural de Brasília para sacar dinheiro vivo não custa um mandato. É escarnecer ainda mais dos cidadãos manter um Conselho de Ética quando a maior parte dos legisladores atropela a sua essência.A Câmara dos Deputados optou pelo caminho do isolamento corporativo, do acordo espúrio, do cálculo miúdo que não vislumbra um palmo além do nariz. Votou a favor da percepção, cada vez mais difundida na sociedade, de que os políticos seriam todos iguais em venalidade.
2) Opinião de Lúcia Hippolito, no UOL News
09/03/2006 - 21h00
Câmara deu uma "banana" para o eleitor bem informado
Veja a entrevista em vídeo
[Da Redação]
A cientista política Lucia Hippolito está indignada com a absolvição dos deputados Roberto Brant (PFL-MG) e Professor Luizinho (PT-SP), ontem, no plenário da Câmara. Em conversa com a jornalista Lillian Witte Fibe, âncora do UOL News, a colunista desabafou: "achei uma vergonha, um deboche. Tem de fechar esse Conselho de Ética que não presta para nada, que foi desmoralizado."Para ela, os parlamentares estão privilegiando o atraso. "A Câmara está dando uma 'banana' para o eleitor bem informado, crítico, rigoroso, que quer um comportamento rigoroso dos seus representados. Está dizendo para o Brasil inteiro o seguinte: queremos o voto dos desinformados, dos desassistidos, o voto clientelista, de cabresto. É inclusive desrespeitoso com essas populações, que realmente trocam o voto por um emprego, porque são despossuídas de tudo."Segundo a colunista, é muito confortável "para nós da cidade grande, que temos três refeições por dia, falar mal do voto de cabresto." E continuou: "a Câmara está dizendo que prefere aquele voto porque é manipulável. Não quer o voto da opinião pública esclarecida, quer do analfabeto, para manter aquela gente naquele estado de semi-servidão. Essas pessoas não estão percebendo o fosso que está se abrindo. Estão brigando com fogo. Ontem ficou muito claro: a Câmara deu uma banana para o futuro, o moderno, a opinião pública, o voto esclarecido." Voto secretoLucia Hippolito lembrou que há duas correntes que tratam do voto secreto em situações desse tipo: uma que apóia e outra que rejeita. A que apóia argumenta que, num julgamento, a decisão final vem do júri e não de cada juiz. Já os que defendem a abertura do voto acham que, como o deputado está ali cassando ou absolvendo, funciona como uma espécie de juiz; portanto, a decisão deve ser pública."Mas tem diferença entre aberto e secreto? O que é isso? Então quer dizer que se fosse aberto o deputado ia votar diferente, por conveniência? A verdade é que 80% não leram o relatório do Conselho de Ética. Votaram do jeito que quiseram."PT = PFL?A cientista política também ficou abismada com o acordo entre PFL e PT. "Foi uma vergonha. O PT aliou-se ao PFL da forma mais desabrida." Segundo ela, outro absurdo foi "o grito de guerra" do deputado Brant "conclamando a Câmara a desafiar a opinião pública." Democracia em frangalhosQuestionada se o país está piorando em plena democracia, Lucia Hippolito foi categórica: "muito! Ontem nós regredimos décadas em matéria de aperfeiçoamento democrático. Não foi apenas a absolvição de dois réus confessos que receberam caixa 2, que usaram caixa 2. A maior parte da Câmara declarou: 'está legalizado sim o uso de caixa 2. E daí?´"Ela lembrou que no discurso de defesa no Conselho de Ética, o deputado Roberto Brant havia dito: "quem nunca usou recurso de caixa 2 que atire a primeira pedra". "Faltou pedra", disse a colunista.RadicalismoO pior de tudo, afirmou a cientista política, é que acontecimentos dessa natureza abrem brechas para o aparecimento de radicais. "Eu falei de fechar o Conselho de Ética, mas daqui a pouco vai ter gente mandando fechar o Congresso. Vão dizer: 'para que serve o Congresso? Só para gastar nosso dinheiro e nos afrontar dessa maneira?'" E, segundo Lucia Hippolito, o que não falta é "maluco".
Especulações livres
10 de mar. de 2006
9 de mar. de 2006
8 de mar. de 2006
Escolhas, opções

As nossas opções nos marcam pelo resto de nossas vidas.
Existe alguma maneira de evitar escolhas? Existe saída para o dilema entre ir atrás de seus objetivos e ficar parado, esperando a vida tomar seu rumo "natural"? Existe tal rumo, tal "destino", do qual não conseguimos escapar? Não optar é, automaticamente, uma opção. Não existe a possibilidade de não optar por algum caminho na vida. E tais opções definem aquilo que somos, o que nos tornamos, e quais portas se abrem e se fecham para nós. Esse lance de fechar portas é o que me amedronta mais. Bom, talvez me amedrontasse mais antigamente... Com o passar dos anos, escutando repetidamente o barulho ensurdecedor de portas sendo batidas na minha cara, acabei por aceitar a inevitabilidade desse fato, quando ele ocorre. Nem sempre eu concordo; por vezes demoro em aceitar que perdi uma grande oportunidade, que fiquei apenas em segundo, terceiro, ou trigésimo lugar, eque não foi o bastante. Mas acabo aceitando. E tomando meu rumo. Em compensação, aprendo cada vez mais a tirar proveito da luz que emana daquelas portas que se abrem repentinamente. E venho aprendendo a tentar perceber pequenas brechas que sempre estiveram ali, ainda que eu não prestasse muita atenção a elas. Falar de perdas e de aceitar perdas parece muito fácil e muito bonito. Há sempre um clichê por trás de cada pensamento, tentando se passar por uma reflexão. Sim, o tempo cura tudo; sim, algumas coisas são inevitáveis... A maturidade, a idade, etc. Mais complicado é tentar entender os meandros dos sentimentos que tomam conta de mim quando percebo caminhos trilhados e caminhos perdidos. Se escolhi, se tomei atitudes, paguei o preço por isso. Se hesitei, idem. Hoje, olhando para trás, começo a perceber que tudo, agora, é mais concreto. Não tenho tempo mais de pensar sobre o "como seria", ou o "como poderá ser". Tudo agora É, concretamente. Tudo o que eu falo tem conseqüências reais. Sou vigiado e questionado o tempo todo. Qualquer deslize e estou fora da jogada. Tudo é mais intenso e mais urgente. Não há mais tempo para pensar sobre inseguranças: elas foram postas à prova, e continuam sendo, a todo momento. Tudo que eu mais temia (e muito do que eu busquei) acabou por acontecer, ainda que de uma forma muito diferente daquela que eu planejei ou imaginei. Enfrentei aqueles medos que, num passado não muito distante, me deixariam em depressão ou calado por meses a fio. E não morri por causa deles! Ainda assim, as perdas foram enormes, irreparáveis. A cada passo, perco um pedaço da minha carne, perco algo de mim mesmo, torno-me alguém diferente do que eu pensava que fosse. Se tenho uma profissão, preciso desistir de quase todas as outras possíveis. Se decido morar em uma cidade, deixo de morar em todas as outras. Se estou com alguém, deixo de conhecer o resto, que talvez me interessasse. Perdas banais, mas que compõem os dramas cotidianos de tanta gente; que alimentam os dilemas existenciais de milhões, bilhões. Corri tanto achando que precisava alcançar alguma coisa que deixei muita gente boa para trás, gente que me faz falta. Alguns correram para outros lados, outros ficaram parados, outros foram andando mesmo. Abandonei muitas lutas, muitas crenças, muitos valores. Ainda que, agora, eu seja obrigado a SER alguém, de fato, o tempo todo.
Talvez aí esteja a minha dificuldade: quem é esse personagem, que de repente é tão concreto? No que deu tamanha correria? O que foi, de fato, alcançado? O que isso importa?
16 de fev. de 2006
Abu Ghraib



De onde vem a força dessas imagens? Do nosso voyeurismo sádico? Do sofrimento que elas capturam, de forma fria e desinteressada? Ou por que representam uma nova relação com a imagem, típica dos nossos tempos? Tempos em que charges em jornais escandinavos detonam protestos pelo mundo. Ou será por que essas imagens, como pinturas renascentistas, encerram em si, condensam, pressupostos sobre a nossa cultura, filosofia, arte e política?
11 de fev. de 2006
Homossexualidade e representação

A enxurrada de discursos sobre o filme Brokeback Mountain é uma ótima desculpa para levantar um tema que me interessa bastante: a representação da homossexualidade no cinema, que é talvez o discurso audio-visual mais importante da atualidade, tanto pela abrangência quanto pela legitimidade cultural, institucional e até filosófica que adquiriu desde o início do século XX. Ou seja, o cinema interessa como manifestação cultural, expressão de valores, e como criador de valores, reinterpretando e deslocando sentidos centrais para uma cultura "midiática" como a contemporânea. No caso da homossexualidade, nunca é demais lembrar o documentário, Celulloid Closet, texto básico para a compreensão mínima dessa questão. Algumas questões fundamentais para uma compreensão crítica e rica do filme no seu papel atual está num texto disponível no site Mix Brasil (clique aqui para ler), que faz uma leitura psicanalítica dos personagens do filme. Incrivelmente, a resenha consegue trazer, ao mesmo tempo, insights sociológicos importantes sobre a questão da possibilidade de vivenciar de forma satisfatória a sexualidade "gay" nos dias atuais (ainda que o filme trate dos anos 1960-1970).
Há, pode-se argumentar, uma estrutura recorrente nos discursos culturais sobre a homossexualidade, que retrata um pouco o preconceito e as dificuldades enfrentadas pelos sujeitos que possuem esse desejo: a maioria dos filmes retrata o amor e a sexualidade homossexual como uma impossibilidade simbólica, como uma tragédia anunciada. O gay/homossexual somente consegue viver sua sexualidade como desvio, nos submundos da sociedade mais ampla, escondido da maioria, e é geralmente punido com a morte (ou com a morte do seu objeto de afeto) pelo seu desvio, nas narrativas mais comuns e "canônicas". A morte significa o fim necessariamente trágico de um ser que não se encaixa na normalidade, e representa a resolução mais harmônica para restaurar a heteronormatividade temporariamente abalada: elimina-se o sujeito desviante, que paga com a morte a ousadia de querer viver um desejo "anômalo". Filmes como Filadélfia, penso, se encaixam nessa estrutura, entre tantos outros na história do cinema.
Eu esperava ver exatamente isto em Brokeback, mas fui surpreendido por uma história delicada e complexa que foca o tempo todo a vivência do amor entre os dois personagens. Ainda que repleto de dificuldades e tolhidos pelas expectativas sociais que precisam preencher (e que a todo tempo inviabilizam tanto a prática quanto o próprio ato de imaginar um futuro em comum), os dois homens fazem de tudo para poderem vivenciar o seu amor. E ainda que a narrativa não consiga escapar do mandamento clássico que exige uma morte/tragédia final, essa morte acontece de forma menos dramática (aparentemente foi um acidente de trabalho), e não consegue apagar do filme a noção de que houve uma grande história de amor efetivamente vivida pelos dois personagens.
Estamos muito longe do momento em que a homossexualidade será aceita como uma possibilidade discursiva positiva, no sentido de algo socialmente desejável. Existe uma brutal diferença entre tolerar guetos homossexuais marginais e pouco visíveis e celebrar quando, por exemplo, descobre-se que um filho tem tendências homossexuais. Se não celebrar, pelo menos ter aquilo como corriqueiro. Quando esse dia chegar, aí sim poderemos falar em aceitação. E como lembra a resenha do Mix, muito da culpa dessa inviabilização pode ser avaliada como sendo dos próprios sujeitos homossexuais que, internalizando a impossibilidade social da sua existência simbólica, apagam-se de fato e, quando não tentam reprimir totalmente, vivenciam seu desejo de forma furtiva e marginal, que é tratado como desvio a ser constantemente combatido e punido (como no caso de Ennis Del Mar, em alguns momentos). Esse tipo de personagem, especialmente em culturas machistas como a brasileira, faz parte do cotidiano e exprime esse drama de forma incorporada, na sua própria vivência "enrustida".
Não deixa de ser complicado culpar, ainda que parcialmente, os próprios sujeitos homossexuais pela sua sujeição e impossibilidade de vivenciar seus desejos. Politicamente, desmotiva movimentos que buscam direitos de homossexuais e possibilita uma legitimação do preconceito como parte da própria experiência homossexual ("Não é a sociedade que reprime, são eles que não se aceitam como gays!"). Como esse texto não é político, pelo menos não num sentido direto de filiação a algum movimento, permito-me brincar com essas idéias. Especialmente no momento em que vivemos, pós-Stonewall, e no país das paradas gays carnavalescas. Se há brechas para que se vivencie o desejo, por que há tantos e tantos sujeitos que se limitam, se podam, e se policiam simbolicamente contra isso? Não podem parecer gays, não podem experimentar essa condição como algo normal e corriqueiro, somente se permitem vivenciar isso como algo marginal e desviante (por exemplo, associado a vida noturna, hedonismo, sexo livre, uso de drogas, etc.). Nesse sentido, a associação, ainda que tortuosa e problemática, entre homossexualidade e amor/relacionamentos de longo prazo é algo, infelizmente, inusitado nos discursos mais hegemônicos.
Há filmes muito mais interessantes para se repensar a homossexualidade (de cara penso em Má Educação, de Almodóvar, e nos filmes de Bruce LaBruce), mas podemos debater Brokeback como parte de um discurso dominante, que parece permitir deslocamentos importantes de estereótipos poderosos que estruturam a vivência da homosexualidade. Mais do que analisar e interpretar filmes ou quaisquer outros discursos culturais, há uma urgência em se criar e vivenciar de fato novos valores e novos símbolos. Esses deslocamentos devem ocorrer na prática cotidiana (e não somente da parte dos homossexuais), para que não se repita eternamente a impossibilidade do amor, a trágica impossibilidade simbólica do homossexual, como fracasso pré-anunciado.
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