Especulações livres

20 de ago de 2005

Políticas: dois filmes



Tive, há alguns dias atrás, a chance única de ver dois filmes fenomenais num curto espaço de tempo. Estava esperando há muito para vê-los, e aluguei os dois DVDs. Por causa disso, uma casualidade, achei interessante comentar os dois filmes juntos, pois creio que podemos pensar em ligações entre ambos num nível além do prazer que tive em assisti-los próximos um do outro. O primeiro é Eu Sou Cuba (Mikhail Kalatozov, URSS/Cuba, 1964, 140 min). O segundo é Videodrome, (David Cronenberg, EUA, 1983, 81 min.) Ligações em termos de serem dois filmes políticos, mas em diferentes sentidos.
Assistir a Eu Sou Cuba foi como uma revelação. Sempre tive curiosidade a respeito de filmes políticos, e a maioria dos filmes políticos que vi eram de diretores ocidentais idealizando uma revolução que nunca aconteceu. De Glauber a Godard, filmes morais e bastante teóricos/metafóricos sempre me fascinaram. Essa possibilidade da revolução, o idealismo e o otimismo com o homem e a sociedade, essa vontade de promover mudanças que trariam, sim, um mundo melhor e mais justo. Nos tempos pós-petistas em que vivemos, somos obrigados a carregar uma dose saudável de cinismo ao encarar construções de sentido como essas. Ainda assim, a beleza e a poesia desses filmes, a meu ver, permanecem inspiradoras.
Eu Sou Cuba é uma obra de arte inquestionável, pela força da sua visualidade, pela maestria da sua técnica, pela sua poesia. Jamais vi nada tão interessante que, conjugando o imaginário cubano, uma certa lamentação a respeito da condição subdesenvolvida do país, conseguisse falar que a revolução aconteceu, sim. O filme é maniqueísta, e fala com a autoridade de quem tem a superioridade moral dos justos e dos corretos. Mas a poesia dos textos, falados em espanhol e ditos novamente em russo, me parece quase universal, nos sentimentos de tristeza esperançosa que eles exprimem. Essa vontade incessante de acertar, de melhorar a vida. O filme termina antes de Havana ser tomada, e fica-se com aquela evocação de um evento magistral, gigantesco, que não vemos de fato. A revolução hoje tornou-se uma ditadura pobre e agonizante, talvez repleta dos pecados denunciados nesse filme: prostituição, dominação norte-americana, colonização cultural. Mas é incrível imaginar como a rivalidade entre a União Soviética e os Estados Unidos, causadora de milhões de mortes, espremeu pura beleza de um povo localizado em ponto tão estratégico. É um filme que lembra Terra em Transe; mas é como se Glauber tivesse ido a Cuba, tomado anabolizantes e treinado incessantemente para uma competição internacional. Não desmerecendo Glauber, mas parece que há uma escola na qual ele pode talvez ser inserido, deixo isso para os especialistas.

E falando em filmes políticos, tema que adoro, comento Videodrome nesse registro também. Nesse que é talvez um dos melhores e mais poderosos de seus filmes, Cronenberg constrói uma narrativa a respeito da "nova carne", fruto de uma conjugação entre seres humanos e a televisão, que seria quase que a sublimação do corpo, transformado em dados. Se eu fosse comentar o filme seria uma tese, e aliás o filme trata de tudo que gastei 4 anos estudando. O interessante é pensar, de forma especulativa como cabe nesse espaço, em Cronenberg como diretor político. Não no sentido que faz de Glauber ou Kalatozov políticos, mas num sentido diverso, de militar por estéticas diversas, por novas condições do humano diferentes da que vivemos. Em vários filmes o diretor aborda a política como subjacente aos fenômenos tecnológicos em pauta em seus filmes, conseguindo agregar numa unidade quase tudo que me dá tesão intelectualmente. O valor profético de Cronenberg, em franco "comeback", ainda está por ser explorado. Essa dificuldade acontece por que simplesmente nossas tecnologias ainda não fazem, mas estão em vias de realizar as mais insanas fantasias de artistas como Cronenberg. Termino com um trecho de uma ótima e curta resenha sobre Videodrome, encontrada na Internet. Publicada originalmente em 1983, quando do lançamento do filme, foi reescrita e atualizada para o lançamento do DVD:

In Videodrome, Cronenberg riskily goes one step beyond in identifying power structures that are, essentially, invisible. While exalting the awesome dynamics of the body—its sexual energy, its capacity for the extrasensory, its suggestibility—Cronenberg implies that the body is a transient state between individual existence and the creation of a "new flesh" in which the television screen is, literally, the retina of the mind’s eye. In the trancelike, if confounding, universe of Videodrome, the only way to resist eradication is to transform oneself into pure electronic energy. Understand that Videodrome was released sixteen years prior to The Matrix. (Make Mine Cronenberg, de Carrie Rickey, publicado originalmente no Village Voice, janeiro de 1983. Para ler o texto completo, clique em http://www.criterionco.com/asp/release.asp?id=248&eid=371§ion=essay&page=1)

3 comentários:

Anônimo disse...

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