Especulações livres

15 de nov de 2005

Festival de cinema e vídeo Mixbrasil 2005




Aproveitando que estou com mais tempo essa semana, devido ao feriado, faço um post mais solto, relatando minhas experiências cinematográficas, sem tanta pretensão analítica (eu acho). Antes de mais nada, que fique registrada a minha frustração de ter perdido novamente a chance de ver o trabalho do Edu Aguillar, que tinha um curta no festival. Edu, me vende logo um DVD com todos os seus filmes, acho foda eu ter perdido de novo todas as exibições do seu curta! Enfim, tive a chance de ver, nessa que é a 13a edição do festival, dois filmes: Hellbent, um filme decepcionante; e Sugar, uma agradável surpresa.
Hellbent (escrito e dirigido por Paul Etheredge-Ouzts, EUA, 2004, 85 min.) é um slasher film clássico: um assassino em série persegue um grupo de amigos (nesse filme, todos gays), que buscam diversão numa festa de Holloween. A idéia parece interessante, mas achei um péssimo filme de terror, antigo, uma sucessão de clichês. Parece que a única coisa que segura o interesse é ver os clichês batidíssimos desse gênero serem vivenciados por rapazes gays. Para quem não acha coisa de outro mundo ver gays na tela, ou já pelo menos parou de corar a face quando vê cenas de sexo e romance entre homens, o filme tem pouco mais a oferecer, na minha opinião. Exceção seja feita a uma cena final, envolvendo a língua do assassino e o olho do protagonista. Algumas coisas me incomodaram, como o inevitável estereótipo dos gays malhados e obcecados por sexo e beleza. Não que pessoas assim não existam, mas enfim, irrita pela repetição constante, e pela cristalização de uma forma particular de se representar os gays. Chama a atenção, na tradução do gênero, a forma como a moralidade aparece no filme. Não estudei isso, mas creio que há uma relação forte entre esse gênero slasher e um certo medo social. Talvez não seja à toa que esses filmes aparecem numa época histórica determinada. Penso nos clichês: jovens, envolvidos em festas regadas a sexo e drogas, sendo eliminados um por um. A transgressão das normas acarreta a morte violenta. No caso do gay fica estranho, por serem todos, a princípio, transgressores. A tradução é feita, a meu ver, criando uma tentativa de casal moral, em oposição a personagens desviantes (o bissexual tarado, o modelo travestido, o romântico fraco). Parece interessante, mas não gostei do resultado.
Sugar (John Palmer, Canada, 2004, 78 min), por outro lado, prometia ser uma sucessão de clichês também: um filme sobre um menino que se apaixona por um michê, se envolvendo em drogas e prostituição. Como se os gays fossem fadados a esse papel trágico. Análise minha, pouco resolvida e pouco pesquisada: o gay, como preço para vivenciar a sua sexualidade desviante e patológica, paga o preço de viver no desvio, nas margens da sociedade, correndo todo tipo de risco, acabando por morrer no final dos filmes. Somente com a morte o homossexual é redimido do seu pecado, ter nascido aberrante. Sexo livre, drogas, prostituição, taras, violência, etc. O que eu vi, no entanto, foi um filme sutilmente poético, inteligente, uma história de amor complexa e poderosa. O filme, ao mostrar as dificuldades do michê em vivenciar o seu amor pelo menino, toca num aspecto importante da nossa cultura, que é essa impossibilidade constante de amar outro homem. O michê se recusa a encaixar-se no padrão "gay", e vive uma "amizade" com o menino. Numa cena maravilhosa, pede para que ele e o menino que se masturbem juntos, sem tocar-se. Não vivenciam um romance gay, mas experimentam essa sexualidade diferente. O menino, frustrado por não ter seu amante completamente, ainda tenta aproximar-se do michê, e com isso vivencia muitas das frustrações que tantos homens com esse desejo vivem. Ainda que a tragédia apareça no filme, ela acontece de forma a não julgar moralmente os personagens da forma como mencionei acima.

5 comentários:

Eduardo Aguilar disse...

Marko, haverá uma nova possibilidade de vc. assistir meus curtas, e serão os 04 de uma vez! Aguardem p/ o fim de novembro, o anúncio das datas em meu blog. Somente depois dessa sessão e se vc. não conseguir aparecer, aí discutimos o repasse do DVD.

fernando disse...

Pô, será eu o único que não gostei tanto assim de MARCAS DA VIOLÊNCIA? nem me empolgou para escrever sobre.... sobre o mix, estou tão sem tempo que não vi nada, se tudo der certo vou matar aula amanhã para ver o HELLBENT às 21h. Queria tanto ter visto o SUGAR, é um filme bastante elogiado lá fora, vou ver se tem alguma sessão disponível ainda, o tempo tá me consumindo mesmo, não tenho tido tempo pra me divertir. Mas finde ano é isso aí. Abraço!

Ale Lima disse...

Do enredo dos dois filmes eu tiro as minhas conclusões. O primeiro é uma cópia do SEXTA FEIRA 13 , só que gay. Poxa , é só mudar os personagens. Do segundo, acredito sim na tese da estereotipação de conteúdo ,mas quantos filmes héteros não tem a mesma narrativa ? A diferença é que sempre há um final feliz com conto de fadas , né ? Bjs

walner disse...

fui num desses Mix Brasil que assisti, faz tempo, ao documentário 'celulóide secreto', sobre filmes da velha hollywood que tratavam veladamente do tema homo.

Komentarista disse...

Edu, vou ficar de olho, valeu! Fernando, o festival está uma bagunça, estão mudando vários horários, parece que o Sugar passa na quinta-feria novamente, confere no site do Mix. Sobre o filme, ele foi feito por Cronenberg, quem sou eu para discordar do mestre hahaha (sou fã, eu sei, é foda). Ale, com certeza, esse lance de final feliz é que pega: com gays, é sempre a morte no final (com algumas exceções claro). Walner, eu vi o documentário que voce menciona, achei fantástico, bastante desconstrutivo, até por se tratar de filmes e da indústria "hegemônica".

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