Especulações livres

13 de ago de 2006

O fim da cordialidade

Um dos mitos de fundação mais presentes no imaginário intelectual brasileiro é o do homem cordial. Termo criado por Sergio Buarque de Holanda, o conceito busca interpretar as formas personalistas de organização da sociedade brasileira, pautadas por relações pessoais e diretas e não pela impessoalidade e racionalidade, características da chamada "modernidade". Essa interpretação é sempre profética, e a cada novo escândalo de corrupção no Brasil, temos a chance de perceber o quanto o nosso estado é apropriado para uso privado, coisa que já falei aqui várias vezes. A modernidade, o estado e o império das leis prevêem cidadãos iguais perante a lei, tratados de forma impessoal, a fim de manter intacta essa diferença entre o público e o privado. Nada mais estranho à organização social do nosso país, como todos sabemos. Se insistimos em falar em modernidade, estado e leis, é mais por inércia ou desejo de alcançar esse padrão de civilização do que numa tentativa de descrever o modus operandi em vigor em Pindorama. Vulgarmente, o termo descreve outro mito presente entre nós: o de que o brasileiro é um povo alegre, hospitaleiro e receptivo, avesso à violência e a mudanças bruscas. Por isso mesmo, rementendo a um post anterior, é que não haveria revolução de nenhum tipo no país. Esse mito, que esconde uma sociedade desigual, violenta e cruel, nos dá um certo sentimento de pertença: somos pobres, mas somos felizes; ou algo desse tipo. Imagens e fatos alheios a essa imagem nos fazem inquietos, ansiosos e nos forçam a perceber que vivemos uma negação imensa. Esse tipo de negação é responsável, por exemplo, pela reação clara e direta, vinda da elite intelectual, contra qualquer projeto de cotas baseadas na raça. Essa negação nos protege do caos interno quando vemos cenas como esta, rapidamente censurada das televisões, talvez pelo seu caráter perturbador. A cena mostra uma reportagem na qual uma câmera escondida flagra um ponto de roubos de carros no centro de Curitiba. A câmera chega a filmar um flanelinha arrombando o carro, e uma dupla de policiais que, após roubar um aparelho de som, fazem a ocorrência da suas próprias vítimas, com a maior cara de pau. No vídeo do Youtube, filmado de uma televisão, podemos ouvir os comentários atônitos dos espectadores. Um deles menciona que o ladrão "nem tem cara de malaco"... Claro, pois é branco e bem vestido. Ainda somos guiados por fantasias absurdas, como a de que bandido é negro, sujo, maltrapilho. Guiamos nossas percepções de realidade por desenhos da Disney e novelas mexicanas, onde o bem e o mal estão claramente demarcados por cores e olhares estereotipados. Nossa sociedade, "cordial", não tem violência nem racismo, diz a lenda. Ficamos orgulhosos, criticando os "gringos" pela sua frieza, e enchemos o peito de orgulho ao comentarmos com todo mundo que, no Brasil, amizade ainda tem lugar, nos importamos com o próximo, e um sem-número de idiotices típica da nossa (coletiva) ignorância.
Comecei a comentar esse conceito de cordialidade, de fato, pois queria pensar uma ligação entre um vídeo de 2004, de um jovem artista baiano, com o vídeo exibido ontem pela Globo, mostrando um manifesto do PCC. Como fica claro pelo texto acima, fico exaltado quando começo com essas críticas todas. Sintoma de um momento pessoal e de desagregação social; mas que é apenas aparente. O que estamos vivendo é apenas um olhar no espelho, olhando a sociedade brasileira por aquilo que ela é; e isso é doloroso. O vídeo baiano em questão chama-se "O fim do homem cordial", e foi bastante badalado no circuito das artes, tendo participado do festival Videobrasil de 2004. Mostra um grupo de pseudo-terroristas que sequestram um empresário e fazem críticas sociais enquanto humilham o mesmo. Com panos cobrindo seus rostos, os atores evocam os presos e toda a imagética do PCC, de clipes de rap e de documentários sobre o Carandiru (um ganho, aliás, na nossa cultura visual e política). Evocam também os vídeos exibidos pela TV árabe Al-Jazeera, que se tornaram ítem célebre de um imaginário mauricinho de esquerda, anti-Bush e anti-americano (de shopping). Ontem, a coisa foi de verdade, e o silêncio predomina. A Globo, que insiste em censurar a sigla PCC (denial), pelo menos até onde pude perceber, parou de mencionar o fato. A Globo"news" (sic), no seu "em cima da hora" das 02:00 de hoje, poucas horas depois da primeira transmissão do vídeo do PCC, noticiou somente a guerra no Líbano. Será que a ditadura ainda não acabou? Será que a nossa mídia não se acostuma com a liberdade de imprensa, ou isso é coisa de gringo também? No vídeo, ao qual não tive acesso, e que não está no Youtube infelizmente, um personagem encapuzado, lê um manifesto. A Globo, encurralada pelo crime, exibiu o vídeo como condição para a soltura de um dos seus profissionais, seqüestrado na noite de sábado. E eu, estupefato, não consigo nem articular um comentário decente, por me sentir um louco, que adoraria acordar desse pesadelo. Talvez essa situação, por tornar claro o conflito, leve a sociedade, a classe política, a elite, quem quer que seja, a tentar algum tipo de auto-crítica. Infelizmente, não sou otimista com relação a isso. Nos faltam heróis, ídolos, crenças e objetivos. E como uma pessoa perdida e cansada, nós levamos a vida, do jeito que dá.
Abaixo a transcrição do vídeo do PCC:
"Como integrante do Primeiro Comando da Capital, o PCC, venho pelo único meio encontrado por nós para transmitir um comunicado para a sociedade e os governantes.A introdução do Regime Disciplinar Diferenciado [RDD] pela Lei 10.792/2003, no interior da fase de execução penal, inverte a lógica da execução penal. E coerente com a perspectiva de eliminação e inabilitação dos setores sociais redundantes, leia-se 'a clientela do sistema penal', a nova punição disciplinar inaugura novos métodos de custódia e controle da massa carcerária, conferindo à pena de prisão o nítido caráter de castigo cruel.O Regime Disciplinar Diferenciado agride o primado da ressocialização do sentenciado vigente na consciência mundial desde o ilusionismo [sic] e pedra angular do sistema penitenciário, a LEP.Já em seu primeiro artigo, traça como objetivo do cumprimento da pena a reintegração social do condenado, a qual é indissociável da efetivação da sanção penal. Portanto, qualquer modalidade de cumprimento de pena em que não haja constância dos dois objetivos legais --castigo e a reintegração social--, com observância apenas do primeiro, mostra-se ilegal, em contradição à Constituição Federal.Queremos um sistema carcerário com condições humanas, não um sistema falido, desumano, no qual sofremos inúmeras humilhações e espancamentos.Não estamos pedindo nada mais do que está dentro da lei. Se nossos governantes, juízes, desembargadores, senadores, deputados e ministros trabalham em cima da lei, que se faça justiça em cima da injustiça que é o sistema carcerário, sem assistência médica, sem assistência jurídica, sem trabalho, sem escola, enfim, sem nada.Pedimos aos representantes da lei que se faça um mutirão judicial, pois existem muitos sentenciados com situação processual favorável, dentro do princípio da dignidade humana.O sistema penal brasileiro é, na verdade, um verdadeiro depósito humano, onde lá se jogam seres humanos como se fossem animais.O Regime Disciplinar Diferenciado é inconstitucional. O Estado Democrático de Direito tem a obrigação e o dever de dar o mínimo de condições de sobrevivência para os sentenciados. Queremos que a lei seja cumprida na sua totalidade. Não queremos obter nenhuma vantagem.Apenas não queremos e não podemos sermos [sic] massacrados e oprimidos. Queremos que, um, as providência sejam tomadas, pois não vamos aceitar e não ficaremos de braços cruzados pelo que está acontecendo no sistema carcerário.Deixamos bem claro que nossa luta é contra os governantes e os policiais. E que não mexam com nossas famílias que não mexeremos com as de vocês. A luta é nós e vocês."

2 comentários:

bellini disse...

Por essas e outras que nunca gostei desse video... e agora que a coisa existe?

bellini disse...

Por essas e outras que nunca gostei desse video... e agora que a coisa existe?

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